1. O que é uma procuração simples
A procuração simples é um modelo de procuração particular usado para autorizar outra pessoa — o procurador ou outorgado — a praticar atos específicos em nome de quem concede os poderes, o outorgante. Ela formaliza o que a lei chama de mandato: quando alguém recebe de outra pessoa poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses (art. 653 do Código Civil).
Ela é chamada de "simples" ou "particular" porque é feita diretamente entre as partes, sem precisar ser lavrada em cartório. O artigo 654 do Código Civil estabelece que qualquer pessoa capaz pode outorgar procuração por instrumento particular, e que ela vale desde que assinada pelo outorgante.
2. Poderes específicos x poderes gerais
Essa é a decisão mais importante ao redigir uma procuração simples, e é o que mais costuma causar recusa na hora de usar o documento. O artigo 660 do Código Civil diferencia o mandato em termos gerais (que só confere poderes de administração) do mandato com poderes especiais. Já o artigo 661 estabelece que, para alienar, hipotecar, transigir ou praticar outros atos que fujam da administração ordinária, a procuração precisa de poderes especiais e expressos.
Na prática, isso significa que quanto mais vago o poder, maior a chance de a instituição recusar o documento.
"Outorgo poderes para representar-me em todos os assuntos e praticar todos os atos necessários."
"Outorgo poderes para, em meu nome, retirar o documento [nome do documento] junto a [instituição], assinando os formulários e recibos necessários para essa finalidade."
Regra prática: descreva o ato, o local ou instituição onde ele será praticado, e o limite dos poderes concedidos. Evite redigir "para tratar de todos os meus interesses" quando o objetivo real é um ato pontual.
3. Para que a procuração simples pode ser usada
Em regra, quase todo ato que não seja personalíssimo pode ser praticado por procurador — exceto atos que a lei reserva exclusivamente ao próprio titular, como fazer ou revogar testamento, exercer cargo público ou prestar serviço militar. Alguns exemplos de situações do dia a dia em que a procuração simples costuma ser suficiente:
🏢 Assembleia de condomínio
O condômino tem, em regra, direito de ser representado por procurador em assembleia (art. 1.335, III, do Código Civil). A convenção ou o regimento interno do condomínio, porém, pode estabelecer restrições específicas — como limite de procurações por pessoa, exigência de firma reconhecida, ou impedimento para síndico e conselheiros portarem procuração de outros condôminos. Confira a convenção do seu condomínio antes de usar o modelo.
🏛️ Atendimento em órgão público
Representar em atendimentos administrativos simples, como protocolar um requerimento ou retirar uma informação, quando o órgão aceitar esse tipo de representação.
🤝 Assinar documento simples
Assinar um contrato ou formulário de baixo risco em nome de outra pessoa, quando a outra parte aceitar a representação.
👥 Representar em reunião
Representar sócio ou associado em reunião ou assembleia de associação, quando o estatuto permitir representação por procurador.
Se a sua necessidade for mais específica — veículo, banco, certidão, encomenda ou documento de um órgão determinado — vale conferir a seção "quando a procuração simples não é suficiente" mais abaixo, porque provavelmente existe um modelo mais adequado para o seu caso.
4. O que deve constar no documento
O artigo 654, §1º, do Código Civil estabelece que o instrumento particular deve conter a indicação do lugar onde foi passado, a qualificação do outorgante e do outorgado, a data, e o objetivo da outorga com a designação e a extensão dos poderes conferidos. Na prática, um modelo bem estruturado costuma reunir:
- Qualificação do outorgante — nome completo, CPF, RG, estado civil e endereço;
- Qualificação do outorgado — os mesmos dados da pessoa que receberá os poderes;
- Descrição clara dos poderes — o ato específico que o procurador pode praticar;
- Prazo de validade — determinado ou indicação de que é por prazo indeterminado;
- Local e data da assinatura;
- Assinatura do outorgante — elemento exigido pelo artigo 654 para validade do instrumento particular.
5. Cuidados para não virar instrumento de golpe
Uma procuração com poderes amplos, sem prazo e para uma pessoa pouco conhecida é exatamente o tipo de documento usado em golpes contra idosos e pessoas vulneráveis — para vender bens, movimentar contas ou assinar contratos sem que o outorgante perceba o alcance real do que autorizou. Alguns cuidados que valem para qualquer procuração simples:
- Escolha o procurador com cuidado. Os poderes concedidos valem como se fosse você agindo.
- Limite o prazo. Uma procuração sem prazo pode continuar sendo usada muito tempo depois de deixar de fazer sentido. Definir uma validade reduz esse risco.
- Limite o objeto. Conceda poderes só para o ato necessário, não "para tudo".
- Guarde uma cópia e informe terceiros de confiança sobre a existência e o alcance da procuração, especialmente em casos envolvendo pessoas idosas ou com dificuldade de acompanhar o próprio patrimônio.
- Desconfie de pedidos de procuração urgentes ou por pressão, principalmente quando vierem acompanhados de outras solicitações financeiras.
6. Precisa reconhecer firma? Pública ou particular?
Não existe uma regra única. A procuração particular, em regra, não depende de reconhecimento de firma para ser válida entre as partes, mas o artigo 654, §2º, do Código Civil dá ao terceiro com quem o procurador vai tratar o direito de exigir que a procuração tenha firma reconhecida. Ou seja, a instituição destinatária pode legitimamente pedir esse reconhecimento, mesmo que a lei não o exija como condição geral de validade. Além disso, o artigo 657 estabelece que a forma da procuração deve seguir a forma exigida por lei para o ato que será praticado — por isso, atos que a lei exige em instrumento público (como determinadas transações imobiliárias) não podem ser feitos com procuração particular.
A procuração pública é lavrada em cartório de notas por um tabelião, que confere a identidade das partes e dá fé pública ao documento. Ela costuma ser exigida justamente nos atos mais formais ou de maior valor. Antes de assinar, confirme com a instituição destinatária qual formato ela aceita.
7. Como revogar uma procuração simples
O outorgante pode revogar a procuração a qualquer momento — a revogação é um direito, não depende de justificativa. Para que a revogação produza efeito perante terceiros, é recomendável:
- Comunicar a revogação por escrito diretamente ao procurador;
- Avisar formalmente qualquer instituição ou pessoa que tenha conhecimento da procuração original;
- Guardar comprovante da comunicação, especialmente se a procuração já foi apresentada em algum lugar.
O artigo 682 do Código Civil também prevê outras causas de extinção do mandato, além da revogação: a renúncia do procurador, a morte ou interdição de uma das partes, mudança de estado que impeça o mandante de outorgar ou o mandatário de exercer os poderes, e o término do prazo ou a conclusão do ato para o qual a procuração foi feita.
8. Quando a procuração simples NÃO é suficiente
Esta página cobre representação genérica. Se a sua necessidade se encaixa em uma das situações abaixo, existe um modelo específico no site — com os poderes, os cuidados e as exigências próprias daquele caso:
| Sua necessidade | Página recomendada |
|---|---|
| Vender um veículo | Procuração para Vender Veículo |
| Transferir veículo para seu nome após compra | Procuração para Transferência de Veículo |
| Fazer o licenciamento anual do veículo | Procuração para Licenciamento de Veículo |
| Abrir conta em banco | Procuração para Abrir Conta Bancária |
| Retirar certidão de nascimento, casamento ou óbito | Procuração para Retirar Certidão |
| Retirar encomenda ou pacote | Procuração para Retirar Encomenda |
| Receber documento específico de uma instituição | Procuração para Receber Documento |
Além disso, a procuração particular não serve para atos personalíssimos (como testamento), não substitui procuração pública quando a lei exige instrumento público para o ato, e não deve ser usada para representação em processo judicial sem orientação de um advogado — o mandato judicial segue regras próprias da legislação processual (art. 692 do Código Civil).
9. Erros comuns ao fazer uma procuração simples
- Redigir poderes vagos demais, do tipo "para todos os fins";
- Não colocar prazo de validade quando o uso pretendido é pontual;
- Não identificar completamente o outorgado (CPF, RG, endereço);
- Usar procuração particular quando o ato exige instrumento público;
- Presumir que a procuração dá poder para atos que a lei exige serem pessoais;
- Não confirmar previamente se a instituição destinatária aceita esse formato;
- Esquecer de revogar formalmente uma procuração antiga que não faz mais sentido manter ativa.
Pronto para criar sua procuração?
Escolha os poderes, informe os dados do outorgante e do procurador, revise o documento e gere seu modelo para imprimir e assinar.
📝 Criar minha procuração simples10. Perguntas frequentes
Conceito e validade
Procuração simples tem validade jurídica?
Sim. Uma procuração particular pode ser válida com a assinatura do outorgante, conforme o artigo 654 do Código Civil. A aceitação por uma instituição específica depende também das regras próprias dela.
Qual a validade de uma procuração simples?
Pode ser por prazo determinado ou indeterminado, conforme o que for escrito no documento. Sem prazo definido, ela permanece válida até ser revogada, até o ato ser concluído, ou até ocorrer uma das causas de extinção previstas no artigo 682 do Código Civil.
Procuração simples e procuração pública são a mesma coisa?
Não. A particular é assinada diretamente pelas partes; a pública é lavrada em cartório de notas por um tabelião e tem fé pública. A escolha depende da exigência legal do ato e da instituição destinatária.
Poderes e limites
Procuração simples serve para qualquer situação?
Não. Ela não é adequada para atos personalíssimos (como testamento), para atos que a lei exige forma pública, nem substitui automaticamente modelos específicos exigidos por bancos, DETRAN ou cartórios — veja a tabela na seção 8.
Posso fazer uma procuração simples para mais de uma pessoa?
Sim, é possível outorgar poderes a mais de um procurador. Nesse caso, indique claramente se eles devem agir em conjunto ou se cada um pode agir separadamente.
Posso limitar a procuração a um único ato?
Sim, e isso é recomendado. Quanto mais específica for a descrição do poder, menor o risco de recusa e de uso indevido além do que foi pretendido.
Formalidades
Precisa de testemunhas na procuração simples?
Não existe uma exigência única para todos os casos. Algumas instituições podem pedir testemunhas ou reconhecimento de firma. Confirme previamente com quem vai receber o documento.
Preciso reconhecer firma?
Depende de quem vai receber a procuração. A lei não exige reconhecimento de firma para a validade do instrumento particular entre as partes, mas a instituição destinatária pode ter regra própria.
Segurança e revogação
Como revogo uma procuração simples?
Comunique a revogação por escrito ao procurador e a qualquer instituição que tenha conhecimento do documento original, e guarde o comprovante dessa comunicação.
É seguro dar uma procuração simples para alguém?
A procuração concede poderes de representação reais. Escolha o procurador com cuidado, limite o prazo e o objeto dos poderes ao necessário, e evite assinar procurações amplas sob pressão ou urgência.
11. Fontes oficiais consultadas
- Código Civil (Lei nº 10.406/2002) — Título VI, Capítulo X, "Do Mandato", artigos 653 a 692, especialmente arts. 653, 654 (caput, §1º e §2º), 657, 660, 661 e 682.
- Código Civil (Lei nº 10.406/2002) — art. 1.335, III (direito do condômino de votar e participar das assembleias, base do direito de representação por procuração em condomínio).
Informações verificadas em setembro de 2026. A legislação pode ser alterada; em caso de dúvida sobre o texto atual, consulte a fonte oficial ou um profissional habilitado.